segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A AREIA E O MAR

(Foto: Cascais)


Quando voltei a escrever depois de um longo tempo sem o fazer, este foi o primeiro poema que escrevi em português. Sinto que houve algum amadurecimento em relação aos meus poemas mais antigos, mas há ainda, sobretudo, um longo caminho a percorrer...


Desmancha-se o mar no regaço da areia
E logo para longe foge envergonhado,
Incerto de não haver no seu gesto ousado
Malícia que ofenda seu manto de Astreia.

Mas ainda mal da praia esteve ausente
Logo regressa, travesso e insistente,
Torna a tocá-la com suas mãos de espuma
Debaixo do sol, da chuva ou da bruma.

Em manso abandono esquece a areia o pudor
Entrega o seu corpo quente à fria água do mar,
Aceita as conchas que lhe traz por tesouro,
De boa vontade consente o namoro,
Às ondas confia seu brando langor
E para longe da praia se deixa levar.

domingo, 18 de outubro de 2009

O ESPELHO

Visto que este blog pretende ser um blog de poesia, vou começar por publicar o poema que, de todos os que escrevi até hoje, é o meu preferido. Não tanto pela qualidade do poema, mas porque saiu do mais profundo do meu ser.



Detém-me o assombro diante do espelho
Ao ver à espreita o monstro que em mim dorme,
O corpo torcido e o rosto disforme,
Peçonha feita de sanha e mau conselho.


De onde saiu tão fera criatura?
De nefasta, fortuita adversidade
Ou funesta natural desventura?
Porque teima quando morto e findo o creio
Em mostrar a odiosa fealdade
Como se ao meu repúdio fosse alheio?


Não sabe com que fúria o rejeito?
Com que garra o arranco do peito?
Não serei nunca livre do veneno
Que nas veias meu sangue contamina
E que em negra tristeza repentina
Disfarçada de ânimo sereno
Me enreda como teia de seda fina?


Mas gerou-me também outra linhagem
Onde vingam a honradez e o brio
E pode triunfar neste desafio
Mesmo quem parte só com meia vantagem!


E se me faltar parte de boa herança
E a perfídia me quiser tragar,
Não há-de faltar a perseverança.



Só depois do caminho navegado
Saberei se a bom porto pude chegar
E se o torpe monstro foi derrotado.


Segue assim aberta a minha história
Até que o presente seja memória
E a terra que é hoje minha guarida
E onde deposito cada passo
Se compadeça enfim do meu cansaço
A minha existência dê por cumprida
E me receba em seu materno regaço.

Agradecimento

Gostaria de inaugurar este blog agradecendo à pessoa que criou a imagem de apresentação do cabeçalho.
Obrigada, Lia!
(Podem visitar o blog da Lia em poraescritaemdia.blogspot.com)
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I would would like to start this blog by thanking to the person who created the image for the headline.
Thank you, Lia!
(You can visit Lia's blog in poraescritaemdia.blogspot.com)